Quando uma pista vira mapa de futuro

O calor do dia (sensação térmica de 36°C na “Rainha da Borborema”) parecia querer competir com a adrenalina das equipes. Havia um cheiro imaginário de borracha aquecida, cola e café... e um burburinho que lembrava um coração grande batendo mais rápido. Estivemos, na pessoa do nosso “Tio João”, na Regional PB do STEM Racing, debutando no papel de juiz da Gestão de Projetos e aprendendo com a mesma intensidade com que avaliava. Um modo bonito de dizer que, em eventos assim, a distância entre ensinar e aprender simplesmente se dissolve.

Ver adolescentes pensando como engenheiros é um privilégio e, ao mesmo tempo, um lembrete poderoso: o pensamento técnico não nasce pronto, ele é esculpido no esforço coletivo, nas tentativas sucessivas e nas conversas à beira da bancada. Eles projetam, montam, testam e, muitas vezes, quebram. Depois voltam a montar, ajustam, refinam. O circuito vira escola. A corrida, laboratório. A pressão do cronômetro se transforma em lição concreta sobre prazos e decisões. E enquanto o público vibra, lá no fundo, a criança que fomos reconhece o rito: a tarefa, a falha, a coragem de tentar de novo.

Foi um dia em que, no coração, cada um dos nossos pequenos também esteve presente. É esse efeito simbólico que realmente importa. Quando um professor ou mentor representa uma comunidade em um espaço de decisão, ele carrega consigo expectativas, aprendizados e aquilo que ainda pode ser. E, em muitos casos, aquilo que já começa a ser: o futuro possível daqueles meninos e meninas que, mesmo sem estarem na bancada naquele momento, colhem referências, repertório e coragem para criar.

Vale imaginar, ainda que por um instante, como seria se mais crianças tivessem acesso a esses laboratórios de risco e invenção. Não se trata apenas de construir mini-carros, embora isso já seja maravilhoso. Trata-se de oferecer contextos em que aprender significa planejar, testar hipóteses, calcular consequências, colaborar, negociar, lidar com frustrações e celebrar conquistas. É formar pessoas capazes de projetar ideias no mundo, e não apenas de reproduzir respostas. É formar cidadãos que compreendem que tecnologia, estética e ética caminham juntas.

O Festival Regional SESI de Robótica se apresenta, assim, como um palco duplo: espetáculo e ofício. Há o brilho das luzes e o aplauso do público, mas há também o silêncio dos testes, das anotações cuidadosas e das pequenas estratégias que quase ninguém vê, mas que fazem toda a diferença. É nesse trabalho de bastidor que a educação assume o formato do real: projetos com começo, meio e fim, decisões que geram consequências, equipes que crescem na cooperação. Para as crianças do clubinho, receber essa vivência como referência amplia um repertório que teoria alguma, sozinha, conseguiria oferecer.

E é importante dizer com clareza: oportunidades como essa não deveriam ser raridade. Talento existe em todo lugar. O que muitas vezes falta é um mapa, uma pista, uma chance concreta de largar. Quando escolas, empresas e instituições constroem espaços de competição colaborativa, elas plantam sementes que podem florescer em cursos, profissões, invenções ou, simplesmente, em formas mais vivas de aprender a conviver. Sonhar é combustível. Construir é o motor. Ambos são indispensáveis.

Voltamos do evento com cadernos cheios de anotações, ideias borbulhando e uma vontade enorme de trazer parte dessa experiência para os nossos encontros: oficinas, mini-desafios, simulações de projetos. Pequenas pistas para que nossos pequenos comecem a desenhar seus próprios mapas. Voltamos também com a certeza de que cada conversa no pavilhão, cada prova assistida e cada troca com as equipes alimenta um repertório que ultrapassa o dia vivido. Vira memória, referência e impulso.

Que venham mais pistas, mais porcas para apertar, mais testes que falham, mais olhos atentos e mais mãos dispostas a arriscar. Porque, no fundo, a melhor lição que podemos oferecer às nossas crianças é mostrar que sonhar grande é apenas o começo e que construir esse sonho é uma tarefa coletiva, possível e cheia de alegria. Se conseguirmos ajudá-las a sair da arquibancada e chegar à bancada, já teremos percorrido boa parte do caminho.

O restante, como sempre, a gente constrói junto!

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